Esta foto do meu pai me foi enviada anos atrás pela minha prima. Ele a segurava no colo. Fiz essa montagem, na época, porque nos achei muito parecidos!

Pai,

No futuro do pretérito do meu coração:

Hoje você faria 60 anos.

Na manhã de hoje eu teria ido ao supermercado comprar um pote de sorvete napolitano e outro de creme para você comer junto com o bolo de leite ninho que eu faria para você. Sabia que agora é moda fazer as coisas com leite ninho? E você nem chegou a conhecer a Nutella, que se tornou a melhor amiga dele.

Compraria velinhas com o número 60 para que, à noite, você celebrasse mais um ano de vida. Levaria um barril de chopp para a sua casa para bebermos juntos e eu roubar todas as espuminhas do seu copo. Entre um copo e outro falaríamos sobre nossa próxima viagem, que seria à Disney, e eu ficaria te enchendo o saco para nos hospedarmos pelo menos por dois dias no hotel das princesas. Você entraria no Google para pesquisar quais as montanhas-russas mais legais para irmos. Nossa, pai, você sequer conheceu o Google, né? Ele é tipo uma Barsa, mas com atualizações constantes, super tecnológico e você encontra de tudo nele.

Hoje eu te daria mil beijos e abraços e falaria inúmeras vezes o quanto eu te amo e o quanto você é importante para mim. Faria isso sem ter medo de demonstrar o que eu sinto. Te agradeceria pela educação que me deu, pelos valores, pelas broncas e por ter me ajudado a crescer e me tornar quem sou hoje. Diria que entendo tudo o que você passou e que minha maior felicidade era ver o quanto a doença tinha feito você mudar para uma pessoa completamente diferente.

Minha maior felicidade no dia de hoje, pai, seria dizer que você é o meu melhor amigo, meu mentor, meu companheiro, meu anjo da guarda protetor. Transbordaria de alegria em poder, simplesmente, te abraçar e agradecer a Deus por sua presença.

 

No presente:

Acordei me lembrando que era seu aniversário, desolada porque meu cachorro está doente. Você quem sempre cuidou dos nossos bichos, sempre sabia o que fazer. Pensei em você inúmeras vezes.

Chorei.

Pensei em como a sua presença faz falta, em como me sinto desprotegida em tantas situações. Pensei em como ter sido privada de uma convivência diária com o masculino me faz ser tão boba, tão ingênua para tantas coisas. Por inexperiência acabo errando com tantos caras porque, muitas vezes, não sei como agir e não entendo cabeça de homem. Não tive um irmão para me ajudar nesta tarefa e você partiu muito cedo.

Constantemente penso sobre o que eu faria de diferente se soubesse que teria apenas mais três anos de vida. Você partiu aos 37 e hoje tenho quase a sua idade. Você, aos 37, parecia tão homem, tão maduro, tão adulto. Eu, aos 34, ainda me sinto a menina desamparada segurando a sua mão naquele caixão, sem saber como seria a vida dali pra frente. Às vezes me sinto tão criança e às vezes tão mulher. Será que você também se sentia assim quando tinha a minha idade?

Hoje pensei na promessa que te fiz no dia da sua morte: Segurei sua mão e jurei que não esconderia mais os meus sentimentos, que demonstraria e falaria às pessoas o que sinto por elas porque amanhã poderia ser tarde demais. Muitas vezes sou incompreendida. É difícil transbordar amor e querer ser transparente quando o mundo vive um período de seca que se apoia na superficialidade e no vazio. Pago um preço alto por isso, mas talvez um dia alguém me entenda e valorize esse meu jeito de ser.

Eu espero que, de alguma forma, você receba o meu amor no dia de hoje e todos os dias. Gosto sempre de pensar que está me protegendo, me guiando e dando palpite nas minhas coisas. Te faço presente mesmo com toda a ausência, pois você mora no meu coração e eu sou parte de você.

Hoje ouvi “Preta, Pretinha”, dos Novos Baianos, me lembrando de você cantando essa música para mim e me chamando de “preta”. Essa era e sempre será a nossa música!

Feliz aniversário, papai!

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Um comentário

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Simplismente lindo!

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