“Por que você não admite que fez bariátrica por estética?”

“Esse povo todo deveria admitir de uma vez que operou para ser magra, para se encaixar no padrão.”

“Emagreceu, agora tá se achando a última Barbie, né?”

Frases deste tipo, entre tantas outras, são algumas das mais comuns no abuso psicológico a quem passou por uma cirurgia bariátrica. Até hoje, conheci apenas uma pessoa que diz ter operado porque não se suportava gorda, odiava aquela imagem, não conseguia emagrecer e recorreu ao procedimento. Claro que, assim como ela, devem haver outras pessoas por aí. Mas não é o caso da maioria.

O ser humano é absurdamente rápido para tecer comentários maldosos. Pessoas julgam com uma rapidez impressionante. Quando você é uma figura pública, então, como eu era considerada por muitos, tudo é duplicado. Tanta gente achava que me conhecia muito bem. Tantas outras já não gostavam de mim antes e aproveitaram a  cirurgia e o emagrecimento para pisotear na minha cabeça.

“Hipócrita, falsa. Por que não assume logo que fez por estética, que nunca se amou, que tudo que ‘pregou’ nesses anos era mentira?”

Simples: porque a verdade da cabeça dessas pessoas não é a verdade. E ponto.

Eu acredito que, assim como foi comigo, 90% das pessoas operam porque realmente já tentaram de tudo e as comorbidades chegaram no limite. Eu estava por um fio do diabetes, fazendo um tratamento severo há dois anos, com problemas ortopédicos e hipertensa. Não tinha mais força para ficar em pé por muito tempo, tinha dificuldades básicas e realmente senti que minha qualidade de vida foi severamente prejudicada quando atingi meu peso máximo, que foi 136 kg.

O que é a beleza quando você não consegue mais nem se reconhecer no espelho? Quando seu corpo está gritando por socorro cada vez que você vai fazer suas necessidades básicas e tem dificuldade de se limpar? Quando você não consegue mais amarrar um cadarço nos pés? Quando seus exames estão piores a cada consulta médica? Quando a bombinha do diabetes está para explodir a qualquer minuto dentro do seu organismo? Desculpe, mas o que é a beleza quando sua vida está uma merda porque todas as coisas básicas e simples passaram a ser difíceis? Quando existir passou a ser um peso extra porque você só fica doente, só sente o seu corpo gritar por socorro? Eu cheguei nesse limite e só posso falar por mim. Eu não suportava mais visitar o hospital semanalmente ou a cada 15 dias achando que ia morrer com a pressão na lua, tendo que controlar os níveis de açúcar, injetando insulina, me sentindo completamente miserável porque eu não me sentia mais eu.

Quem opera, opera com medo. Medo da cirurgia em si (eu não tive, mas a maioria esmagadora tem). Medo do que vai acontecer depois, medo de falhar, de não bater a meta, do julgamento das pessoas, de não se reconhecer em um corpo diferente, de não gostar de sua “nova versão”, de se achar esquisita(o), de não conseguir mudar os hábitos para sempre. Tem medo do reganho, de ter que fazer reparadora e passar por mais várias cirurgias, medo de como as cicatrizes vão ficar, de se sentir uma boneca(o) de retalhos, medo de falhar em tudo e as pessoas massacrarem de vez.

Será que tudo isso já foi levado em consideração por essa turminha do tribunal de justiça da obesidade?

Emagrecer por estética

Vivemos em uma sociedade cruel. Todo mundo sabe disso. O padrão de beleza é especialmente massacrante para mulheres. A opressão estética está cada vez mais acentuada. É claro que é mais fácil se encaixar. Quem é que não gostaria de comprar roupa em qualquer loja? De caber em qualquer cadeira? De não temer sentar em uma cadeira de plástico? De não ser automaticamente julgada como lerda, incompetente ou desleixada em uma entrevista de emprego?

Todo mundo gostaria de ter uma vida mais simples, descomplicada e fácil porque, convenhamos, a nossa vida já é bem difícil em muitos aspectos. Vou escrever algo agora que, basicamente, é a resposta para este post, então prestem atenção e guardem isso para a vida:

A BARIÁTRICA VAI TE AJUDAR A RECUPERAR A SAÚDE. ELA NÃO VAI TE DAR BELEZA.

O EMAGRECIMENTO VAI TRAZER SEQUELAS ESTÉTICAS QUE PODEM SER AINDA MAIS DOLOROSAS PARA QUEM TEM PROBLEMAS COM A PRÓPRIA IMAGEM.

É esse é o resumo. 🙂

Quem opera normalmente perde uma quantia significativa de peso. Não existe um emagrecimento substancial que não deixe sequelas físicas e visíveis no corpo de uma pessoa. A pele vai cair, vai ficar flácida. Ela pode ganhar formas e aspectos que sequer imaginávamos. O rosto vai ficar diferente também e a pele dele vai mudar bastante. As formas do rosto mudam. No meu caso, rugas, linhas finas e de expressão ficaram aparentes e meus olhos e nariz mudaram, por exemplo. Os seios irão murchar e despencar significativamente. Talvez e pessoa precise de mais de 4 cirurgias reparadoras, com cicatrizes grandes e aparentes. Eu perdi também muita gordura no glúteo e isso me causa certa dor ao ficar sentada por muito tempo, por exemplo. Meu cabelo caiu muito, tanto que acabei raspando. Tem gente cujo cabelo muda muito depois da cirurgia e não volta a ser como antes.

E aí, a listinha tá suficiente pra entender que uma pessoa que fez bariátrica não vai virar a Barbie?

Mas se ela quiser virar também, ela pode: o problema é dela. Não nos cabe julgar. Cada um sabe o que viveu, o que sente e o que deseja.

A estética é apenas uma consequência da cirurgia. E, nesses quase 3 anos convivendo com bariátricos, aprendi que há 4 grupos de pessoas: as que simplesmente emagrecem e ficam como estão, pois são desapegadas da estética; quem faça as reparadoras porque ficou muita sobra de pele e isso causa não só danos psicológicos, mas também físicos, como feridas e assaduras; quem se empolga, se vislumbra e faz uma série de cirurgias para tentar ficar cada vez mais “padrão e perfeita” e as pessoas que tomaram tanto gosto por um novo estilo de vida, que se apegaram demais com a academia, que acabam “indo pra turma da maromba”. E todas essas pessoas merecem ser respeitadas, pois cada uma tem uma relação com a obesidade, traumas e sonhos.

O julgamento da bariátrica por estética

E quem somos nós para julgar essas pessoas? Por acaso conhecemos as dores de cada uma delas? Das motivações que estão por trás das decisões? A obesidade é uma doença crônica. Todo mundo que operou vai passar a vida cuidando e tratando para que ela não volte. Operar não vai fazer um milagre na sua vida: a cirurgia é apenas um caminho. Se a consciência e os hábitos não mudarem, rapidamente tudo voltará a ser como antes. O peso não muda para sempre. Eu continuo engordando com a maior facilidade do mundo. Se eu não mantiver os novos hábitos que adquiri após a cirurgia, colocarei tudo a perder.

Estou me preparando para fazer reparadoras futuramente, mas não é uma preocupação para mim. Embora eu tenha distorção de imagem, estou feliz porque estou saudável. Acredito que, após realizar as reparadoras, a minha distorção melhore, pois já conversei com bariátricos que relataram essa experiência. Precisarei de intervenção nas coxas, nos seios, nos glúteos e no abdômen. Só aí são 4 novas cirurgias de recuperação bastante delicadas. Quero virar a Barbie? Não. Vou ficar cheia de cicatrizes, mas não me importo. Meu corpo conta a minha história e tenho muito orgulho do caminho que trilhei. Hoje tenho certeza e posso atestar que a tal felicidade da magreza não existe, mas isso será assunto para outro post.

Estudando muito sobre comportamento nos últimos anos, aprendi que ataques vêm da sombra de cada um. Quando julgamos alguém e apontamos o dedo para algo é porque aquilo nos incomoda brutalmente. Geralmente denota que gostaríamos de ter, ser ou de poder fazer o que a outra pessoa faz ou, então, que nos irritamos profundamente com alguém ou com uma característica particular porque é um espelho nosso. Então, sabe aquele ditado: Quando Pedro fala para mim algo sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo? É isso. A equação é simples assim.

Quem tanto se incomoda com o outro está abraçando sua sombra. E tudo bem. Levamos tempo para entender isso, nos acolher, evoluir. Eu também tenho minhas sombras, também busco entender o que precisa ser melhorado em mim e estou constantemente trabalhando em cima disso. Uma coisa que já aprendi, no entanto, é que nunca sei o que o outro passa. Não conheço a história dele, os recursos dele, os sonhos, as dificuldades, as motivações. Eu apenas respeito cada um, tal qual como é.

Não julguem. É simples assim. Lembre-se que quando você julga, está mostrando mais os outros sobre você do que sobre o outro. Acolha a sua sombra e não a transforme em um monstro. Não vale a pena, vá por mim! 😉

Comentários

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2 comments

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Meu DEUS que texto perfeitoooo Paulinha!
Consegui me enxergar total nele.
Que necessário as pessoas terem a oportunidade de ler seu relato.
Você consegue o impossível, que eu te admire ainda mais!🤗🥰

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Gi, fico muito feliz que ele tenha falado contigo também! É muito fácil falar ou julgar quando não se vive na pele, né?
Um beijo enorme e obrigada por estar sempre aqui <3

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