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Hoje. Exatamente hoje descobri que tenho hiperinsulinemia. Uma palavra tão grande e meio confusa para falar. Fiquei repetindo umas três vezes após a médica dar o diagnóstico para gravar o nome. Ela começou a explicar e eu só conseguia chorar. Não chorei de “ai, estou doente e agora?”. Chorei pelo descaso dos médicos anteriores, pela negligência com que tratam pessoas obesas. Somos vistos como comilões relaxados, somos tratados como “iguais”. É como se todo médico que se deparasse com um gordo na frente dele o julgasse como um guloso que não tem vergonha na cara para levantar a bunda do sofá e se exercitar. Me lembrei das inúmeras consultas com endocrinologistas desde muito pequena e me lembrei das últimas, as mais recentes. Ninguém havia me pedido exames que iam um pouco além do básico. Só olhavam o essencial do sangue, o resto – que até então eu nem sabia que existia – foi ignorado.

Por uma ironia do destino quem me recomendou minha médica atual foi uma das minhas melhores amigas que tem esta mesma doença. Ela sempre conta como nenhum médico descobria o que ela tinha e que foi apenas quando passou com a Dr. Maria Cristina que veio o diagnóstico. A vida dela mudou da água para o vinho. Minha amiga passava muito mal e tinha vários sintomas, mas os médicos achavam que era síndrome do pânico, vejam vocês. Depois de descobrir, ela que também sempre foi gorda a vida inteira, conseguiu emagrecer e viu o cabelo dela melhorar muito (ela não chegava a ter alopécia como eu, mas o cabelo dela era muito parecido com o meu).

A médica foi me explicando tudo, mas eu estava um pouco perplexa porque faço parte do time das pessoas que não têm os sintomas. Ela me disse que é por causa da doença que minhas tentativas de controlar o peso, mesmo fazendo atividade física, eram frustradas. A doença não me deixa emagrecer e eu ia engordando cada vez mais. Só em 2016 eu engordei 15 kg e achei que era emocional. Como sou muito grande, não é super aparente, mas percebi muita diferença e estava lutando para eliminar esse peso que ganhei repentinamente, que não ia embora de jeito nenhum. Ela explicou que tomando o medicamento para controlar a hiperinsulinemia e mudando a minha alimentação – agora não posso mais comer glúten e nem nada que contenha açúcar e por causa da vesícula também não posso comer fritura – meu corpo deve ser capaz de eliminar o excesso de peso que ganhei tão repentinamente.

Mas o que é hiperinsulinemia?

A hiperinsulinemia é caracterizada como uma resistência à insulina, ou seja, o corpo não recebe adequadamente a quantidade necessária da substância dentro da célula. Com isso o pâncreas continua recebendo a informação de que deve produzir mais insulina, causando o excesso dela na corrente sanguínea. Se o pâncreas fica sobrecarregado e para de produzir a insulina, então desenvolvemos a diabetes tipo 2. Para facilitar, a médica me explicou assim: é como se a pessoa fosse pré-diabética. A diferença é que se eu cuidar, tomar o medicamento e mudar a alimentação, o meu corpo não irá mais produzir a insulina em excesso, prevenindo que o meu pâncreas falhe e eu vire diabética de verdade. O termo pré-diabético não se usa mais por isso, porque tudo o que é pré significa que vai evoluir para algo e neste caso específico, com tratamento, o paciente pode reverter o quadro e nunca desenvolver a diabetes. A doença, pelo o que entendi, é crônica e exige medicamento e alimentação diferenciada para sempre.

Eu saí do consultório médico há apenas umas duas horas e ainda não sei exatamente o que vai acontecer e como proceder certinho. A minha sorte é que a médica é super disponível para esclarecer dúvidas e tenho minha amiga que também poderá me dar mais dicas sobre o lance da alimentação, que vai ser a parte mais difícil. Mudar totalmente a minha rotina alimentícia não vai ser nada fácil e eu terei que ser muito forte pra recusar os alimentos que não posso comer, mas sei também que depois de um período o corpo acostuma e para de pedir. Uma das coisas que estou empolgada é pensar na possibilidade de ter um cabelo mais “normal”. Quando a médica disse que com o tratamento ele poderia melhorar bastante eu caí aos prantos, mas chorei mesmo porque o lance do cabelo me machuca demais da conta e a minha maior esperança é vê-lo melhor.

A perspectiva, a longo prazo, é que eu emagreça um pouco por conta do tratamento e da dieta (apenas lembrando que meu tratamento não é para emagrecer e sim para tratar a doença) e que, assim, ela fique controlada e meu pâncreas pare de trabalhar excessivamente para enviar insulina às minhas células. Não sei porque desenvolvi a doença, mas acredito que seja por fator genético, já que existem diabéticos em ambos lados da minha família.

O motivo pelo qual estou contando tudo isso a vocês – e eu deveria ter me poupado, mesmo – é simplesmente para alertá-las sobre negligência médica com obesos. Quero que o meu relato te ajude a entender que às vezes nem todo médico vai te tratar de verdade e que você deve procurar alguém que realmente te enxergue como um ser humano, não apenas como um gordo. Informe-se sobre exames, diga ao seu médico que você gostaria de fazer um acompanhamento mais aprofundado e peça por exames específicos. Tem muita coisa que influencia na obesidade e não tem sintoma aparente, então isso é praticar amor próprio, é se cuidar. A médica que está cuidando de mim agora é particular e eu tenho convênio médico, mas prefiri investir esse dinheiro nela, que me trata de verdade, do que mais pra frente gastar com mais remédio ou hospital, já que os médicos do convênio não andam muito preocupados em me examinar a fundo. Às vezes vale a pena colocar a mão no bolso, vale a pena pesquisar mais, vale questionar seu médico: você não é apenas uma gorda qualquer, entenda isso.

Eu sei que vai ficar tudo bem, sei que vou entrar na linha e só espero, do fundo do meu coração, que a adaptação a esse novo “estilo de vida forçado” seja razoavelmente ok. Agora é cuidar pra que a doença nunca evolua, pois vejo bem o que acontece com as pessoas diabéticas por tê-las na família e eu, definitivamente, espero não ter que passar por isso.

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